Por Ronan Pinto Goulão
O coração é o órgão do Amor. É através dele que sentimos, vivemos e somos, em toda a nossa espontaneidade, em toda a nossa pureza, em todo o nosso ardor. Ele é o ponto mais directo de contacto com a Alma Humana, com tudo aquilo que nos faz inteiros, completos, preenchidos e realizados.
O coração é assim a chave, o caminho e o destino da nossa jornada pela existência. É do coração supremo do Universo que toda a Vida pulsa e através do nosso próprio pulsar, é ao coração do Universo que todos um dia vamos retornar.
No nosso processo evolutivo quase todos nós passámos uma fase de pureza, inocência, candura e liberdade… uma fase de alegria e felicidade absolutas, em que tudo era vivido no momento mágico do agora, e em que toda a intensidade do universo sabia dentro do sorriso do nosso coração.
Lembram-se quando eram traquinas? Lembram-se quando não mediam as coisas? quando não pensavam? quando só sentiam?
Quase todos nós passámos por aí. Pela leveza do só sentir. E depois acontece a maior tragédia que a nossa alma sofre. Crescemos. Tornamo-nos adultos. Chegamos a uma altura em que temos que ter responsabilidades. Em que temos que ser maduros. Em que temos que ter juízo. “Já não és nenhuma criança, João!”

E aí começamos a jornada invertida pela seriedade, pela ponderação, pelo avaliar, planear, problematizar, pensar e sofrer. E é aí que começamos a ficar zangados com o nosso coração: quando nos tornamos crescidos, sóbrios, prudentes, sérios e sisudos.
O nosso coração nunca sofre da doença da seriedade. Ele mantém-se eternamente jovem, eternamente espontâneo, eternamente brincalhão, divertido, leve, solto, livre e extraordinariamente feliz. Ele é na eternidade como uma criança doce, muito viva, muito leve, muito alegre, muito feliz.
E à medida que crescemos, vamos abandonando esta criança interior, que começa a ficar cada vez mais sozinha, cada vez menos expressiva, cada vez menos relevante. Ela fica ancorada no canto infinito do nosso coração, aguardando pacientemente o dia em que resolvemos sair da prisão da nossa recém adquirida formalidade.
A prisão mental
Este trabalho de sair do coração não é fácil, mas acontece. No momento em que abandonamos o paraíso do nosso coração, para mergulharmos no plano mundano da nossa mente, começamos a perder, pouco a pouco, todas as qualidades, toda a leveza, toda a alegria e todo o Amor que antes banhava continuamente o nosso ser. Começamos a reger-nos por conceitos, começamos a sentir necessidade de ter lógica, começamos a procurar entender e ser entendidos. Em vez de tomarmos referencial no nosso interior, começamos a procurar referências exteriores para medir a qualidade do nosso ser.

E assim começamos a medir a qualidade do nosso ser pelo trabalho, pelo dinheiro, pela estabilidade, pela carreira, pelo prazer, pelas viagens, pelo nível social, pelo tanto e tudo que em nada está relacionado com a essência do nosso Ser.
A isto nós chamamos ser Adulto. Ser adulto – nos nossos dias – é uma doença da alma. Rodeamo-nos de aparências, de lógicas e esquemas, para assim assegurarmos alguma coisa, sem sabermos bem o quê.
Esta é a prisão da nossa mente. Quando ela toma as rédeas da nossa vida, ela aprisiona a nossa alma e torna tudo insalubre, vazio, monocromático, desinteressante, mas absolutamente lógico, maduro, conciso, eficiente, perfeitamente inteligente e racional.
Muitos seres humanos vivem presos nesta genuína gaiola de racionalidade, que é altamente sofisticada. Porque é uma gaiola invisível. Nós somos as grades, o guarda, as paredes e os alarmes. Somos nós próprios que nos mergulhamos neste labirinto e só nós podemos um dia decidir sair.