Por Gregorian Bivolaru

Lema: “Num estado de desapego, realizar o que tem que ser feito, não importa o que é e nunca desejar obter os frutos de tais acções.”

Karma Yoga representa uma das quatro principais formas clássicas de Yoga. Karma Yoga representa um ponto de partida e é uma parte essencial dos ensinamentos do Bhagavad Gita, o que serve como terreno suficiente para a sua autenticidade.

Como todas as outras formas de Yoga, o objectivo principal e final do Karma Yoga é facilitar e acelerar a evolução espiritual do seu praticante persistente. A principal diferença em relação a outras formas de Yoga é que o Karma Yoga pode ser praticado desde o início, e pode ser aplicado sempre, o dia todo, porque é aplicável a todas as actividades humanas. Comparado com o Karma Yoga, a prática diária e contínua de Bhakti Yoga, por exemplo, só está disponível num nível muito elevado de realização e a prática de Jnana Yoga (com a sua principal forma Hatha Yoga) é restrito a períodos específicos do dia e por um determinado intervalo de tempo. Estes argumentos levam à conclusão que Karma Yoga é uma forma instantânea de Yoga para a vida diária.

A partir das diferentes definições tradicionais de Karma Yoga, a mais actual e precisa, embora incompleta, é a seguinte: “Karma Yoga é o Yoga da fusão profunda e completa com o Divino, através de qualquer acção altruísta”. Karma Yoga começa a partir do facto de que, em determinado momento da nossa vida diária, mesmo quando nos sentimos forçados a agir de uma forma ou de outra, temos a liberdade de escolher e assumir a responsabilidade total das nossas acções. O uso de qualquer disciplina espiritual – Yoga, ou qualquer outro caminho espiritual – implica a existência do “livre arbítrio”, tanto na direcção da vida como na escolha do método para fazê-lo. A principal questão para a qual Karma Yoga nos ajuda a obter uma resposta é: Como e por que devemos escolher entre dois ou mais caminhos ou opções num determinado momento? Através da prática persistente, podemos descobrir que Karma Yoga dá-nos mais liberdade, mesmo que isso possa parecer inacreditável para os povos ocidentais.

Muitos sábios contemporâneos, como Sri Ramakrishna ou Sri Aurobindo, mostraram que o Karma Yoga é bastante adaptado aos tempos modernos e é adequado a todos os seres humanos, ainda mais do que Bhakti Yoga, que está apenas indicado para aqueles com intensas inclinações religiosas (o que é muito raro é hoje em dia). Karma Yoga é adequado a todos os seres, mais ainda do que Raja Yoga, porque este último implica um esforço intelectual para além das possibilidades do indivíduo comum. Comparado com Jnana Yoga, onde um forte poder de concentração e internalização é necessário (actualmente uma qualidade muito escassa), Karma Yoga é mais fácil de praticar, porque não exige todos esses talentos. Além disso, Karma Yoga é bastante adequado aos ocidentais, já que estes estão sempre prontos a agir, de forma mais ou menos céptica, sobre o valor de práticas espirituais, que está a levar as pessoas para longe da vida prática numa sociedade orientada para objectos materiais.

Gostaria também de salientar que a prática do Karma Yoga não exclui a prática simultânea de uma ou mais das outras formas de Yoga, mas vai ampliar a sua eficiência. Esta ligação com outras formas de Yoga não é essencial, dado que a prática de Karma Yoga é suficiente por si mesmo para atingir o mais elevado estado de realização espiritual. Karma Yoga também tem uma grande vantagem que não é encontrada em outras formas de Yoga. Enquanto Bhakti Yoga, Raja Yoga, Tantra Yoga, Hatha Yoga e até Jnana Yoga, quando praticada de forma incorrecta, sem a supervisão cuidadosa e orientação de um guru competente, pode trazer danos físicos ou mentais sérios, Karma Yoga não apresenta perigos para o seu praticante, mesmo quando o seu conhecimento é baseado apenas nos ensinamentos escritos.

Quanto a este aspecto, vamos citar vários mestres contemporâneos:

Swami Vivekananda: “No caminho do Bhakti Yoga há o grande perigo de que a alma receptiva pode começar a confundir emoções fugazes por revelações espirituais e pode interpretar as aspirações comuns pelas verdadeiras aspirações espirituais” (Yoga Prático). “Com poucas excepções podemos aprender Raja Yoga sem perigo, a menos que sejamos directamente guiados por um verdadeiro guru espiritual” (Prefácio de Raja Yoga).

Sri Ramakrishna: “O Jnana yogi diz: ‘Eu sou isso’, mas enquanto nós considerarmos o nosso corpo como sendo o nosso Self imortal, isso é egoísmo infeliz. Não nos vai ajudar a progredir, mas sim levar-nos à ruína.” (Ensinamentos de Ramakrishna).

Swami Brahmananda: Depois dos seus discípulos já estarem purificados pela prática de determinadas asanas e de certas formas de pranayama, disse-lhes: “Quanto às práticas de Hatha Yoga, evitá-las se não quiserem ter consequências dolorosas. Hatha Yoga é um caminho muito perigoso quando praticado na ignorância e sem a orientação de um guru competente” (Disciplinas Espirituais).

Acrescentamos aqui que o sistema de Karma Yoga é quase livre de conceitos metafísicos ou religiosos e, mesmo num estágio avançado de prática, Karma Yoga não exige a ajuda de qualquer disciplina física ou qualquer dieta. No entanto, é lógico que o Karma yogi deve fazer o seu melhor para manter-se saudável.

O principal objectivo do Karma Yoga

Swami Vivekananda descreve o ideal do Karma Yoga da seguinte forma: “O ser humano ideal é aquele que no do meio silêncio mais profundo e da maior solidão encontra a actividade mais intensa, e aquele que no meio da mais intensa actividade encontra o silêncio e a solidão do deserto”. “O Karma yogui não precisa  de acreditar em nenhuma doutrina. Ele pode até nem acreditar em Deus, nem perguntar-se a si mesmo o que é a alma, e ele pode até nem ser atraído por qualquer especulação metafísica de todo” (Yoga Prático).

No entanto, porque os mestres espirituais do Oriente, cujos ensinamentos que herdamos, são todos profundamente religiosos não é surpreendente que eles tenham interpretado o Karma Yoga a partir dessa perspectiva. Sri Ramakrishna disse: “Karma Yoga é a comunhão espontânea com Deus através da acção”. Do ponto de vista do sistema de Bhakti Yoga, essa interpretação pode ser vista como a revelação do Divino através do amor e do ponto de vista do sistema de Jnana Yoga como a busca da consciência do Divino Absoluto. Ramakrishna disse também: “O objectivo supremo do Karma Yoga é o mesmo em todas as formas de Yoga: a realização do Eterno Supremo ou do Impessoal Divino”.

Sri Aurobindo: “A actividade desapegada é muitas vezes o único instrumento necessário para a união inefável com o Mestre da Criação”. “Realizar todas as actividades numa fusão íntima e em profunda comunhão com o Divino que está em nós, numa profunda harmonia com o universal que nos rodeia e com o transcendental além de nós, não devemos ser limitados pela nossa separação e muitas vezes mente humana rígida, não sermos escravos do seus imperativos ignorantes ou aberrantes e das suas sugestões estreitas, isto é Karma Yoga. ” (Yoga Prático Integral).

A eficácia do sistema de Karma Yoga

Independentemente da forma como representamos a nossa meta espiritual, esta pode ser alcançada através de uma das formas de Yoga. A Iluminação (mokña), é definida no Hinduísmo como a comunhão com o Divino em todas as formas, a realização do plano divino de consciência, a ancoragem da consciência na Verdade Suprema, a realização de uma liberdade maior na vida. Mokña pode ser obtido através de todas as formas de Yoga, mas é mais fácil e rapidamente alcançado através de Karma Yoga. Relativamente a isto, seguem algumas citações de sábios conhecidos.

Swami Sivananda: “Muitas pessoas acreditam que o Karma Yoga é um tipo de Yoga inferior, mas isso é um grande erro.”

Rabindranath Tagore: “Muitos de nós pensamos erradamente que a acção é contrária à liberdade.” “Nós nunca iremos obter um resultado significativo, tentando alcançar o infinito fora do domínio do acção.” “Se nós declaramos que gostaríamos de perceber Brahman (O Divino Supremo) apenas durante a introspecção e deixá-Lo de fora das nossas acções exteriores, considerando que queremos beneficiar da Sua presença apenas através do amor que sentimos nos nossos corações durante a oração, sem qualquer outra adoração por Ele através de outras modalidades exteriores, ou se considerarmos que apenas o contrário é verdadeiro, então estamos a obstruir o nosso trabalho sobre o longo caminho para a Verdade e estamos então a prepararmo-nos para uma falha lamentável” (Sadhana).

Sri Ramakrishna: “Quando realizada sem apego a acção torna-se uma maneira fácil de obter o verdadeiro objectivo na vida, que é a comunhão com Deus.”

Swami Vivekananda: “Através da actividade desapegada, o ser humano pode facilmente chegar onde Buda apenas chegou através da meditação e Jesus através do amor e de orações” (Yoga Prático). Mesmo que esta afirmação possa ser chocante para alguns cristãos fundamentalistas, isto mostra claramente que, para Swami Vivekananda, Karma Yoga é tão eficiente quanto Raja Yoga ou Bhakti Yoga quando praticado ao seu mais alto nível.

Ma Ananda Moyi: “Aquele que pratica o Karma Yoga vai imediatamente perceber Brahman (o Supremo) como Consciência Absoluta e receberá a graça da Mãe Divina” (Ensinamentos de Ma Ananda Moyi).

Para o estudante cuidadoso da espiritualidade Hindu, é óbvio que estas são metas objectivas a serem alcançadas tanto no Jnana como no Bhakti Yoga.

Swami Ramadas, que alcançou a iluminação através de Bhakti Yoga, diz: “Não deixar de agir, mas, agindo completamente desapegado podemos facilmente obter o supremo estado de beatitude e iluminação” (Cartas).

Swami Brahmananda, filho espiritual de Sri Ramakrishna: “Nós podemos obter o Conhecimento Supremo, mesmo que apenas participemos persistentemente em várias actividades consagradas ao Divino” (Disciplinas monásticas).

Ramana Maharishi, o Jnana Yogi intransigente: “A acção livre de desejo, com um total desapego do seus frutos, é superior ao conhecimento combinado com a prática”. “O estado em que o desempenho da acção é livre de desejo é o caminho que leva facilmente à iluminação. ” (Ensinamentos de Ramana Maharishi).

Como conclusão, podemos dizer que: se for realizada no espírito de Karma Yoga qualquer acção, independentemente do seu grau de importância, pode ajudar-nos a avançar na direcção da iluminação.

A técnica específica em Karma Yoga:

Os fundamentos teóricos e técnicas da acção em Karma Yoga são claramente afirmados por Kanna no Bhagavad Gita, com a única ressalva de que a ordem em que essas ideias são apresentadas não são as mais convenientes para as pessoas ocidentais. Resumidamente, os sábios ensinamentos de Kanna são:

  • Não se pode ser sem acção, nem por um segundo.
  • Não se deve fazer como objectivo pessoal a inacção.
  • Certas acções são obrigatórias, e portanto não podemos escapar delas.
  • Não se deve desejar os frutos (ou as consequências) das acções.
  • Não se deve estar apegado à acção em si.
  • Não se deve considerar como sendo o autor da acção.
  • Qualquer acção, independentemente da sua natureza, não vai acorrentar o seu executante, se for feita desta maneira.
  • Na verdade, podemos dizer que o Karma Yoga é a habilidade divina (sabedoria e desapego) nas acções.

Karma Yoga e o sentido de responsabilidade:

Vimos que, em termos gerais, o sistema de Karma Yoga pode ser resumido em quatro princípios:

  • Não considerar nenhuma acção desapegada como sendo sem importância, insignificante e incompatível com o papel que pensamos que temos que ter na vida enquanto Karma yoguis.
  • Não desejar ou temer egoisticamente os resultados das acções que são feitas de forma completamente desapegadas, e que são realizadas como instrumento divino.
  • Não te apegares egoisticamente à acção, enquanto a realizas de forma desapegada.
  • Nunca durante uma acção ou depois dela deves te considerar o autor de tal acção, mas sim o instrumento através do qual Deus se manifesta.

Os últimos três pontos, se mal interpretados, podem facilmente levar a um estado de total ausência de interesse (que é uma manifestação de egoísmo!) para com a acção que tem que ser feita. Neste caso, vamos executar essa acção superficial e apressadamente, “não importa como”, porque nós agora já não nos sentimos responsáveis por ela. Isto é exactamente o oposto do que Karma Yoga é na realidade. Na verdade Karma Yoga coloca uma responsabilidade maior sobre o seu praticante. Isto é evidente por duas formas:

  • A difícil responsabilidade de escolher, por entre todas as possibilidades existentes, a que melhor responde ao mais alto ideal divino num determinado momento. É impossível escapar dessa responsabilidade ou esconder–se dela por trás de um dogma ou uma lei;
  • A obrigação de realizar, com todo o teu poder e num estado perfeito de desapego, a acção particular que foi escolhida. Isto implica que, de tempos em tempos, durante essa acção, é necessário haver momentos de reflexão e consagração ao Divino. Estes momentos são necessários por forma a realizar bem estas duas condições.

Sri Aurobindo escreve aos seus discípulos: “A preguiça deve ser erradicada, isto é claro, mas às vezes é óbvio para mim que foram demasiado longe na direcção oposta. É necessário agir completamente desapegado, com toda a energia que vos foi oferecida pelo Divino, mas é igualmente necessário, às vezes, não agir de todo.”(Prática de Yoga Integral) “Muito trabalho ininterrupto, às vezes, altera a qualidade da acção, independentemente da experiência e do entusiasmo de quem o faz”.

A dificuldade característica do sistema de Karma Yoga:

Nunca devemos imaginar que a perfeição e a maravilhosa realização interior,  que são possíveis através do sistema de Karma Yoga, são fáceis de alcançar. Mesmo a compreensão intelectual correcta das suas regras e a sua correcta aplicação não são fáceis de todo.

Kanna diz no Bhagavad Gita: “No que se refere ao que, na verdade, acção e inacção desapegadas são, até mesmo os sábios por vezes não têm certeza, e alguns deles ficam confusos. Devemos entender bem os conceitos de acção individual, acção errada e inacção. Aqui, é necessário uma grande sabedoria porque o caminho de acções é frequentemente muito complicado “.

Sri Ramakrishna fala regularmente sobre as dificuldades na prática do Karma Yoga: “Nishkama karma (a acção que é desapegada do desejo egoísta dos seus frutos) é muito difícil” (Ensinamentos dos Ramakrishna). “A acção altruísta total é muito difícil, especialmente nos tempos actuais. Agir sem apego egoísta é extremamente difícil”. E Swami Vivekananda observa com alguma decepção: “A pessoa que pode agir completamente desapegada por cinco dias, ou até mesmo por cinco minutos, sem qualquer motivo egoísta que seja, sem pensar de todo no futuro, nas recompensas do céu, na gratificação, nas punições ou em qualquer outra coisa do mesmo género, vai tornar-se instantaneamente num poderoso gigante espiritual”. (Yoga Integral Prático) Sri Ramakrishna disse aos seus discípulos para pensar da seguinte forma: “Eu imagino que alcanço os meus actos com desapego, mas eu não sei bem até que ponto isso não é uma ilusão e se eu não estou a agir de forma apegada. Eu faço actos de caridade sem saber se desta forma, na verdade, estou a cair nas boas graças das pessoas.” (Ensinamentos dos Ramakrishna) E Sri Aurobindo diz também: “Karma Yoga é um caminho rápido, mais simples do que a meditação no Yoga, com a condição de que a mente não está fixada no Karma, mas exclusivamente no Divino” (Yoga Integral Prático).

Ma Ananda Moyi acrescenta: “A acção que é totalmente consagrada a Deus é muito mais valiosa do que a acção executada sob o impulso do nosso próprio desejo. A primeira traz a fusão divina que nos vai levar à Iluminação, e a última tem como objectivo, o prazer egoísta que nos vai levar a mais e mais experiências neste mundo. A única acção verdadeira é aquela que revela a fusão eterna entre o ser humano e Deus; as outras acções são inúteis, indignas de serem chamadas de ‘acções’ e por causa disso podemos dizer que elas não são de todo acções “. (Ensinamentos de Ma Ananda Moyi)

Combinando Karma Yoga com outras formas de Yoga:

A prática do sistema de Karma Yoga pode ser combinada com a prática de outras formas de Yoga, especialmente Bhakti Yoga, Hatha Yoga, Raja Yoga, Laya Yoga. Este é um dos principais temas dos ensinamentos de Kanna expostos no Bhagavad Gita. Sobre este assunto vou dar várias citações:

“Abandona e oferece todos os teus trabalhos ao Divino.”

“Não importa o que faças, fá-lo desapegadamente, como uma oferta para Mim. Desta forma, estarás livre dos resultados bons ou maus que acorrentam a acção egoísta.”

“Faz todas as tuas acções desapegadamente, impulsionadas apenas pelo teu amor por Mim.”

“Aquele que está na raiz de todos os seres e que permeia todo o universo – só por adorá-Lo através da actividade feita com desapego, essa pessoa pode facilmente obter a perfeição”.

Para Sri Aurobindo, o Karma Yoga é mais eficiente quando “abandonamos a nossa própria vontade e os nossos desejos egoístas para nos focarmos na vontade divina”. (Prática de Yoga Integral)

Sri Ramakrishna contou áqueles que o foram consultar: “Orar a Deus para que este te envie a Sua graça e força necessárias para realizares as tuas funções com desapego, sem esperança de qualquer gratificação interna ou externa e sem medo de uma punição neste mundo ou noutro.” (Ensinamentos de Ramakrishna)

Significativamente, Kanna insiste na importância do conhecimento espiritual e inteligência (noutras palavras Jnana Yoga) na prática de Karma Yoga: “Esta é a inteligência sobre a qual ouviste falar em Samkhya; ouve agora o que o Yoga te está a ensinar: se estás no estado de Yoga através desta inteligência, Ó filho de Pritha, vais eliminar para sempre a escravidão da acção “. Kanna continua a dizer que Karma Yoga completa muito bem qualquer outro tipo de Yoga, entre os quais estão Raja Yoga, Tantra Yoga, Hatha Yoga, Laya Yoga, Bhakti Yoga.

Para Sri Aurobindo “a actividade realizada num estado de desapego completo da mente, como uma forma de prática espiritual é um método forte em qualquer forma de Yoga”.

Swami Ramadas afirma: “Sem Karma Yoga, a prática de Jnana Yoga e Bhakti Yoga, Hatha Yoga, Tantra Yoga e Laya Yoga é apenas uma glorificação espiritual egoísta extrema”. (Cartas)

Liberdade completa através do Karma Yoga

Cada caminho espiritual autêntico, cada religião, cada sistema filosófico importante expressa, de forma específica, o esforço fundamental do ser humano em direcção à Libertação. Consciente ou inconscientemente, tudo no Universo evolui de forma mais rápida ou mais lenta para o mesmo objectivo essencial.

Este Universo, apesar de gigantesco, é apenas parte de uma existência infinita. Restringido a uma determinada forma que é submetida ao espaço, tempo e determinação (causalidade), apercebemo-nos de partes deste Universo com a nossa mente e com os nossos sentidos (podemos vê-lo, senti-lo, tocá-lo, ouvi-lo), podemos desenhá-lo a partir da nossa imaginação, podemos perceber a sua força subtil de influência e podemos descrever os seus princípios específicos e as suas leis da manifestação.

O Universo que percebemos, onde a nossa existência se desenrola como pano de fundo, reflecte a nossa mente como sendo finita e limitada. Esta reflexão é, na verdade, fruto da nossa criação mental. Para além dos limites desta criação mental, ou por outras palavras, para além das nossas possibilidades mentais habituais, as leis e princípios que operam no Universo objectivo quase que não têm correspondência. Desta forma, para o Homem sábio, é claro que a lei fundamental de acção e reacção é perfeitamente plausível e torna-se operacional nos limites do “nosso universo”.

Para além dos seus limites, a nossa existência já não é submetida a essa lei, porque a lei da causalidade não vai para além das fronteiras deste universo criado pela nossa mente. Assim, é claro que a nossa existência neste Universo é impotentemente submetida à lei da causalidade (Karma).

Neste universo, limitado pela nossa própria percepção, não há, aparentemente num certo ponto de vista, livre arbítrio até porque, sendo algo que tentamos conhecer através dos nossos recursos limitados do “nosso universo”, este está condicionado às suas manifestações pelo espaço, tempo e causalidade. Como tal, tudo o que está sujeito à lei da causalidade não pode ser completamente livre porque é influenciado por outros factores e torna-se por sua vez, em causa.

No entanto, para além da esfera limitada deste universo condicionado e limitado pela nossa mente, um Princípio Absoluto manifesta-se. A manifestação deste Princípio é análoga à manifestação da vontade humana. Este Princípio, por estar para além da acção da lei da causalidade, é absolutamente livre de todas as leis da Harmonia Macrocósmica.

É então normal concluir que, para atingir esta Liberdade completa devemos ser inteiramente capazes de ir além das fronteiras do nosso Universo limitado e condicionado. Este ir para além é, na verdade, um movimento de alteração do nosso nível de consciência limitado para a esfera dos valores essenciais eternos supremos, que são infinitos e perfeitamente livres. Este movimento de alteração, que concede a liberdade total, exige uma certa mudança interna baseada no conhecimento, compreensão e elevação superando tudo o que é limitado, falso e efémero em nós (tudo o que faz o nosso Ego).

Para realmente transcendermos o nosso Ego é necessário saber qual a sua esfera de manifestação. Tudo o que gera novas amarras no nosso ser e nos fixa neste Universo, representa o campo e domínio da acção do Ego. Os nossos sentidos, pensamentos, corpo, mente, atitudes, preconceitos e conceitos todos eles têm, em maior ou menor grau, a marca do Ego.

Karma Yoga, através da acção altruísta e completamente desapegada, ensina-nos a suprimir essas tendências que estão permanentemente a esticar os seus tentáculos sobre nós e que se manifestam através do nosso egoísmo básico. Ao renunciarmos gradualmente a todas as formas de apegos egoístas, de forma permanente e controlarmos sem esforço os nossos processos mentais, ao agirmos de forma completamente desapegada e nunca sermos motivados pelo egoísmo, ao esforçarmo-nos por oferecer com toda a sinceridade todos os resultados das nossas actividades ao Divino, oferecendo-Lhe permanentemente o nosso pequeno e efémero “Ego”, ao estarmos sempre atentos e conscientes, abertos e flexíveis a todos os fenómenos e estados que se manifestam em e através de nós, vamos começar a atingir gradualmente esta Liberdade suprema, porque a partir do momento em que deixamos a Vontade Suprema agir através de nós e guiar-nos em tudo que fazemos, estamos imediatamente a sair para fora da incidência das leis do “nosso universo” e, portanto, entramos em ressonância com a Harmonia Suprema, que é Deus.

O grande Yogi Swami Vivekananda diz o seguinte no seu livro sobre Karma Yoga:

“Quem é que pode viver ou respirar nem que seja apenas por um instante se o Todo-Poderoso não o quiser?”

“Deus é a Providência toda-poderosa que é eternamente activa. Cada força de manifestação pertence somente a Ele e rende-se apenas a Ele. Deus é tudo e está presente em todos. Nós só podemos adorá-Lo. Assim, não te esforces por recolher para ti mesmo os frutos do teu trabalho, mas realiza de forma desapegada o bem apenas por causa do bem. Só então vais realmente obter o desapego perfeito. Só então as algemas terríveis criadas pelos sentidos e pela mente serão quebradas e só então a nossa Liberdade completa será re-alcançada. Esta Liberdade Suprema é o objectivo essencial do sistema de Karma Yoga”.

Oferecer ajuda aos outros a partir da perspectiva do sistema de Karma Yoga:

O amor, a verdade, o bem-estar, o desapego, a felicidade completa, a liberdade, a beleza, a igualdade, numa palavra: sabedoria – este não é apenas um código moral, mas em última análise, é o objectivo supremo do ser humano, porque ele tem dentro de si uma manifestação extraordinariamente poderosa da sua força espiritual que é recebida através da ressonância inefável de Deus.

O enorme auto-domínio exigido pela acção altruísta, feito de acordo com o sistema de Karma Yoga é, simultaneamente, a expressão e a prova de uma força espiritual tremenda, que o yogui pode manifestar, quando o considera necessário, de acordo com o seu livre arbítrio.

Saber a quem deves ajudar, quando e que tipo de ajuda e – muito importante – saber como lhe deves oferecer essa ajuda, quanto e as formas através das quais essa ajuda vai chegar ao seu objectivo – de modo que ela não origine novos efeitos vinculativos ou consequências kármicas – representa a prova clara de uma acção sábia, desapegada e completamente integrada na Harmonia Divina. Só assim, esta acção individual nascida de uma profunda compreensão da necessidade divina, pode transformar-se gradualmente em liberdade gigantesca para manifestar a tua força espiritual que te foi concedida por Deus.

Swami Vivekananda diz no seu livro sobre Karma Yoga: “Para ajudar fisicamente os outros com desapego, satisfazendo apenas as suas necessidades físicas é de facto um grande feito; mas é bom saber que a ajuda mais preciosa é aquela dada por um período de tempo extremamente longo. Se por uma hora de acção desapegada cobres as necessidades de um homem por um mês – isso é uma grande ajuda; se esta ajuda cobre as necessidades do homem, durante um ano, então isso é uma ajuda enorme. Mas se o homem pode ser ajudado para sempre, na eternidade, esta será, naturalmente, a maior ajuda divina, que alguma vez pode ser dada ao homem “.

Ele acrescenta: “O verdadeiro conhecimento espiritual é a única forma de ajuda, que pode aniquilar para sempre todas as nossas tristezas. Qualquer outro conhecimento irá satisfazer apenas temporariamente as nossas necessidades. Somente com a ajuda do verdadeiro conhecimento do espírito as raízes do sofrimento serão destruídas para sempre. É por isso que a ajuda espiritual oferecida a um ser humano é a maior ajuda que alguma vez pode ser oferecida.

Quem oferece às pessoas o verdadeiro Conhecimento Espiritual é o maior benfeitor da humanidade. E vemos que os homens mais poderosos e apreciados foram aqueles que ajudaram a humanidade nas suas necessidades espirituais, porque o Espírito por si só é a base para a actividade de toda a criação.

O homem que é espiritualmente forte e saudável pode facilmente ser forte em todos as situações, se ele assim o desejar. Se um homem ainda não obteve a força espiritual, as suas necessidades físicas ou psíquicas ou mentais não poderão ser satisfeitas da forma correcta”.

Estas afirmações levam-nos à compreensão dos seguintes aspectos:

  • A única ajuda verdadeira é aquela que mostra ao homem como ajudar-se a si mesmo e aos outros a eliminar os sofrimentos e misérias geradas pelo egoísmo e ignorância.
  • Esta ajuda deve ser sempre dada por forma a orientar o homem para o conhecimento directo de si mesmo. Somente este conhecimento interior permitir-lhe-á integrar de forma certa e sábia o jogo da manifestação. Este conhecimento interior irá confirmar a existência da sua natureza espiritual, e isso vai ajudá-lo a libertar-se da cadeia de causalidade através da eliminação gradual do egoísmo e da ignorância, que são a raiz dos seus sofrimentos.
  • Oferecendo a sua ajuda de forma minuciosa, eficiente e desapegada, o Karma Yoguin deve possuir este conhecimento superior divino em si mesmo, a nível experimental. Só se essa condição for cumprida é que o yogui pode ser um verdadeiro modelo para os outros. “Se um cego conduzir outro cego, então há um grande perigo de ambos cairem num abismo”, disse Jesus

Às vezes, por rigidamente tentarmos aplicar certas leis ou princípios sábios de acção, chegamos a uma forma interior de inflexibilidade, que é apenas a manifestação de uma atitude dogmática. Desta forma, podemos dificultarmo-nos a nós mesmos, do ponto de vista espiritual, por uma obsessão dolorosa de integrar tudo rigidamente, inconscientemente trazendo uma e outra vez ao de cima o aforismo bíblico: “a carta mata e somente o espírito vivo dá vida”.

Saber ajudar correctamente e no momento correcto, de forma desapegada e instantânea, para além das teorias e análises intermináveis, representa a prova viva da realização espiritual interior real. Neste estado torna-se ainda mais clara a ideia de que “a acção desapegada é claramente superior à inacção”.

Como tal, devemos sempre tentar equilibrar a nossa ajuda desapegada com as circunstâncias concretas do momento e do que está a ser envolvido, prestando muita atenção aos seguintes elementos:

  • Qual é o aspecto ou o problema mais importante que deve ser resolvido naquela determinada situação quando tentamos ajudar desapegadamente uma pessoa;
  • Qual é, na verdade, o problema mais urgente com que a pessoa está a ser confrontada;
  • Como deve ser o nosso esforço e apoio individual (que vem do Divino) direccionado e focado para a remoção ou pelo menos a diminuição da causa que gera, naquele momento, o maior sofrimento na pessoa.

Este apoio desapegado, esta ajuda vem de Deus através de nós, esta oferta de nós mesmos como instrumento para a manifestação divina (quando temos o nível espiritual necessário) pode até tornar-se numa oferta completa do nosso ser como um canal divino para desapegadamente ajudar os outros. Este é principalmente o caso dos grandes espíritos deste planeta, como Jesus, ou de alguns grandes mestres espirituais, como Buda ou Ramakrishna cujas vidas inteiras foram um sacrifício contínuo e desapegado, oferecidas para ajudar e despertar espiritualmente milhões de pessoas.

“A única solução para a remoção total e definitiva dos sofrimentos do mundo consiste em dar ao povo o conhecimento espiritual através do qual a realização espiritual torna-se possível. Ignorância é a fonte de todas as desgraças. Quando as pessoas virem a Luz Divina do Espírito, quando eles forem puros e fortes espiritualmente, só então o seu sofrimento vai desaparecer para sempre “, disse Swami Vivekananda.

Esta atitude contínua de ajudar desapegadamente, de servir altruisticamente os outros, tem as suas raízes numa realidade espiritual profunda e toda-poderosa, que é de facto o Amor. O profundo conhecimento do Self abre as portas para um reino divino, celestial, onde tudo o que é bom, verdadeiro e belo se torna possível. “Quando o amor se torna infinito, o impossível torna-se facilmente possível”, diz um provérbio oriental.

Quando o verdadeiro amor existe, o nosso ser torna-se profundo e imediatamente expandido no infinito beatífico. Estamos então a abraçar o Reino Divino que permanentemente nos abraça. Nesses momentos de aceitação da expansão apercebemo-nos dos seres circundantes como sendo parte de nós mesmos e, logo de seguida, o seu sofrimento, transferido para nós, tortura-nos também. O seu desamparo e impotência está a chamar-nos para removê-lo, porque nesse estado, somos capazes de ajudar. Através da empatia completa, através de uma profunda identificação com os outros, ao nível de Atman, vamos espontaneamente abraçar toda a gente ao nível de consciência. Então, nós tornamo-nos simples e naturais em tudo que fazemos e pensamos. Ao sentirmo-nos desta forma, apercebemo-nos que os outros tornam-se parte de nós e isso faz com que a nossa oferenda seja mais forte e o nosso desapego total, porque agora sabemos que, de facto, Deus está a oferecer tudo através de nós.

Se na maior parte do tempo estivermos cheio de amor e compaixão, as nossas acções também serão elas preenchidas por amor e compaixão. Esta acção completamente desapegada, cheia de amor divino e liberta de todo o egoísmo irá gradualmente trazer-nos a felicidade infinita. O Divino, a ajuda desapegada que estamos agora a dar aos outros é, de facto, o nosso próprio ser feliz, a nossa própria existência liberta de quaisquer condicionamentos.

Tornando-nos desta forma numa força triunfante divina, amar agora de uma forma divina e desapegada, o nosso poder de acção torna-se infinito. Este é o momento em que nos sentimos omnipresentes e quando tudo parece estar em nós, porque todo o nosso ser torna-se num canal divino para a força que envolve e impulsiona a pessoa que precisa de ajuda. Neste estado, sabemos de certeza que esta circunstância é favorável tanto para nós quanto para a outra pessoa e que a nossa ajuda divina, que se manifestará em e através de nós, irá atingir o seu objectivo perfeitamente.

O estado perfeitamente divino que estamos a experienciar quando essa ajuda divina se manifesta através de nós e atinge o seu alvo, produz o milagre alquímico da nossa própria transmutação, sublimação e transformação interior. Em essência, ao ajudar desapegadamente os outros estamos, ao mesmo tempo, a ajudarmo-nos a nós próprios. Em tais momentos iluminados entendemos então as palavras de Jesus: “Aquele que tem será dado mais”. Neste estado, nós experimentamos uma riqueza interior incrível, um sentimento de plenitude e realização espiritual completa, que é incrivelmente esmagador e que nos faz reconhecer Deus em tudo o que nos rodeia.

Ser capaz de ajudar os outros de forma desapegada é um privilégio divino que apenas nos é concedido quando o merecemos plenamente. Um intenso estado de gratidão para com o Divino cresce em nós. Abençoado é aquele que recebe a ajuda divina, bem como aquele que oferece o que lhe é oferecido por Deus.

Deves estar sempre profundamente grato ao Divino para seres capaz de manifestares, de forma desapegada, amor, compaixão, caridade, generosidade e justiça. Porque, na verdade, tu estás a oferecer o que o Divino, na sua infinita bondade, está a oferecer através de ti centena de vezes, e por isso tu tornas-te puro e perfeito.

Ao compreender completamente que, na verdade, toda a manifestação é impregnada pela bondade divina, por amor e inteligência do Supremo e pela compreensão de que todas as circunstâncias externas são criadas para oferecer ao homem a possibilidade de conhecer Deus em tudo o que existe, como podemos então manter ainda em nós a dúvida, a desconfiança, a falta de confiança, o ódio, a ignorância e o sofrimento?

Por agirmos sempre desta forma, apercebemo-nos que nada neste Universo depende apenas de nós, porque na verdade não temos nada. Nem mesmo um mendigo depende da nossa caridade. Nada e nenhum ser depende da nossa ajuda; na verdade tudo tem origem em Deus. Estas ideias ajudam-nos a remover a forma dolorosa e subtil do Ego, que nos leva a pensar que o bem-estar das outras pessoas depende apenas de nós e que, sem o nosso apoio, amor e força espiritual, eles vão sofrer continuamente.

Especialmente para o sábio, Deus é a sabedoria profunda. Deus é amor infinito na acção contínua, que apenas se manifesta em e através de nós.

Vamos abrir nossa mente e alma tão amplamente quanto pudermos para deixar-mo-nos penetrar inteiramente pelo amor e sabedoria de Deus, para vir a saber como podemos servi-Lo na eternidade, tornando-nos um com Ele por forma a  alcançar assim a Libertação Suprema.